15.10.09

Convivência

Um dos maiores aprendizados de se morar fora é aprender a conviver com as diferenças. E nem sempre é muito fácil. Quando se trata de espanhóis, italianos, portugueses, franceses ou os hermanos latinos, não há nenhum problema. Somos todos da mesma forma, ocidentais, consumimos em grosso modo a mesma cultura e nos identificamos mais ou menos com as mesmas referências. E o humor é o mesmo, sempre é uma festa. A coisa já muda um pouco com os alemães, que são até bem mais abertos do que eu pensava, mas ainda sim se distanciam um pouco. Eles também consomem a mesma cultura, mas têm uma própria cultura alemã muito forte, que ao contrário dos americanos, não é muito exportada, sobretudo em termos de música. Além da produção cinematográfica, principalmente em Berlim, que é enorme, mas fica restrito bastante ao no consumo interno. E claro, a educação pais-filhos é bastante diferente da nossa. Isso faz com eles tenham referências um pouco diferentes. Meio complicado é conviver com os orientais e muçulmanos. Cultura completamente diferente, em todos os sentidos. Nos respeitamos entre si, mas é muito difícil de se misturar, as idéias não batem, sobretudo com os muçulmanos. E os orientais são super fechados, sempre em grupos, talvez por serem na maioria das vezes extremamente tímidos.

Divido cozinha e banheiro com uma muçulmana dos Marrocos, outro marroquino, muçulmano mas não segue todos os costumes(primeira vez que vejo isso), uma coreana, uma libanesa, uma alemã, um russo, um alemão, uma palestino da faixa de Gaza, um búlgaro, um cara do Camarões e uma tia da Georgia, que até hoje não trocou uma palavra comigo, a não ser um breve "Hallo". Na cozinha sempre rola assuntos complicadíssimos como política e religião, quase sempre impossível discutir esses dois temas.

Aqui talvez as pessoas não se entendam completamente, mas se aceitam e se respeitam. Isso é o mais importante.

11.10.09

Euro Trip - Derrière des forêts cosmopolites


Eu, Léo, Rico e Rodrigo. Osnabrück, Alemanha.

Pelas ruas fervilhantes do Soho em Londres, nas ruas em torno da Puerta del Sol em Madrid ou pela vielas estreitas entre prostitutas, drogas e coffee shops do Red Light District em Amsterdam.

Foram essas, as três viagens que fiz pela Europa até agora, além de Praga e outras cidades da Espanha. No domingo cheguei de viagem de Amsterdam, depois de viajar 09 horas de ônibus. Ainda faltam algumas cidades pra conhecer, mas agora vou ficar um tempo sem viajar, só estudando e aproveitando Berlim.

Amsterdam

Erámos três, eu, Leo e Rodrigo. Saímos, na outra terça-feira de Berlim pra Amsterdam. A idéia original era ir pra estrada e pedir carona, mas acabamos abortando a idéia porque já estava um pouco tarde e conseguimos uma carona paga através do site Mitfahrgelegenheit. O carro era um Clio antigo e o motorista, um alemão da DDR chamado Rico. Tudo certo durante a viagem, fui conversando com Rico sobre DDR, Muro e sobre os vários países que ele havia morado. Mas, quando já estava cochilando, o carro inventa de quebrar. Todo mundo pra fora, chovendo muito e fazendo um frio absurdo na estrada. Mais uma hora e chega o reboque, que nos leva para uma cidadezinha chamada Osnabrück. Nessa cidade iríamos pegar um trem direto pra Amsterdam, faltavam apenas 250 km. Mas o trem só sairia às 04:30 da manhã, ainda eram 09 da noite. Então compramos vinho, ligamos o som (Arctic Monkeys, na expectativa do show) e ficamos na estação passando o tempo e conversando, acabamos nos decidindo em tentar pegar carona na estrada pela manhã, pois havia visto noutro site de caronas (hitchbase.de) uma dica de um local que parecia ser bom para pegar carona sentido Amsterdam. Os bancos onde estávamos pareciam umas camas, então tiramos um cochilo, só acordando com muito frio pela manhã ainda escura. Fomos pra estrada, passamos quase 03 horas pedindo carona, mas não deu certo. Então, decidimos esperar uma carona que passaria em Osnabrück de 14h, enquanto um de nós três iria de trem direto pra Amsterdam, pois a carona era apenas pra duas pessoas. Nesse tempo, praticamente acampamos numa loja de Döner e ficamos esperando o tempo passar. Enfim, chegou a carona, uma van amarela estilo Edukators, perfeito. Três horas de viagem e chegamos em Amsterdam, depois de um dia e meio de viagem ao total.

Muita chuva na cidade, era impossível de andar sem se molhar. Fomos deixar nossas coisas na casa de um cara que ficou de nos receber através do Couchsurfing. A casa ficava em Haarlem, cidade vizinha de Amsterdam, quase um Recife-Olinda. Deu pra comer, beber e dormir muito bem, recuperando as energias. No outro dia, fomos enfim conhecer a cidade.

Amsterdam é uma das cidades mais bonitas que visitei, uma arquitetura bem peculiar, com as casas que parecem tombadas pros lados ou pra frente, nunca sendo lineares. Canais, casas-barcos e bicletas por todo lado, deixando o clima de cidade pequena, apesar da loucura que é a cidade na verdade. Claro, não se pode deixar de visitar o Red Light District, com as mulheres mais lindas se vendendo nas vitrines. Também faz parte de qualquer tour pela cidade, passar pelos Coffe Shops, com um menu extenso com vários tipos de maconha, haxixe, skank, bolos, chás, cogumelos...

Nesse mesmo dia, fomos pra Leiden, 50 km de Amsterdam, pra visitar Gregor e dormir por lá. Claro, nos perdemos e demoramos muito até chegar lá. Na sexta, voltando pra Amsterdam tentamos não pagar tickets, mas dois de nós fomos pegos. Eu e Léo escapamos por pouco, quando os fiscais já estavam um na frente e outro átras, sendo nós os próximos a termos que mostrar os bilhetes, a porta se abriu e saímos correndo do trem. Por pouco.

Mais um noite pelo Red Light District e no outro dia ainda andamos pela cidade, fomos na casa que Anne Frank morou, andamos de novo pelo Red Light District e quando vimos já era hora de voltar. Dessa vez, sem riscos, passagem comprada com antecedência, direto pra Berlim.

London

Green grass, grey sky, overcrowd metro, fish and chips, tee... Yes, it's London.

No começo de agosto fui pra Londres, gostei bastante. Sobretudo do centro, onde milhares de pessoas andavam rápido pelas calçadas estreitas e depois das 18h começavam a funcionar os bares. Oxford Street é onde se concentram as lojas e Soho, próximo a Piccadilli Circus, onde estão a maioria dos bares do centro. Lá também funciona a Chinatown, complexo de ruas que formam o bairro chinês no meio da cidade.

A viagem começou em Frankfurt (Hahn), onde encontrei com Dai e Cassi, lá passamos seis horas esperando o vôo para Londres. Dormir no chão até que não foi problema, isso até uma voz nos altos falantes do aeroporto começar a gritar para tomarmos cuidado com as malas. Cheguei em Londres, só querendo dormir. E de fato dormi uma hora no primeiro parque que encontrei.

Primeiro lugar a visitar foi o British Museum, onde estava a Rosetta Stone, múmias, sarcófagos e mais um monte de coisa que nem esperava ver por lá. Mas o que mais me chamou atenção foram quatro fotos de um cara chamado Ben Bohane. Fotos tiradas nos 60 de guerrilhas na África.

Em Londres a grande maioria dos museus são gratuitos, inclusive o Science Museum com seus dinossauros, o Tate Modern com obras de Picasso, Dalí, Miró e outros pintores importantes e o National Portrait Gallery, com fotos de ingleses famosos. Lá estava havendo uma exposição temporária de fotos de um turnê européia Bob Dylan nos anos 60, apenas 14 fotos por Barry Feinstein. Do caralho!!!

Foi bom ter passado uma semana em Londres, pois deu pra sentir bem o clima da cidade. Andei bastante de metrô, o famoso Undergrownd, ou para os londrinos the tube. (Super Overcrowd) Passava algum tempo no metrô pra chegar em Stratford, a famosa Bela, lá a galera me recebeu super bem. Pessoas de primeira.

As ruas do centro eram enlouquecedoras, calçadas estreitas, pessoas apressadas, carros na "contra-mão" (look right! no no! look left!!! - não sei como não fui atropelado). Na Oxford street, tinha a impressão que as pessoas iam me devorar se eu parasse de andar rápido. O ritmo é imposto pela cidade.

Londres foi a cidade mais cosmopolita que eu visitei, o metrô e as ruas eram como a Torre de Babel, eu desisti de tentar descobrir que língua que as pessoas falavam. A imigração de indianos lá está como a imigração de turcos aqui em Berlim, ainda com a facilidade da língua ser a mesma, devido a colonização inglesa.


Madrid e Castilla y Leon


Welcome to Tijuana!

Antes e depois dos dez dias no Marrocos, conheci algumas cidades da Espanha. A conexão (de três dias) para Casablanca foi em Madrid. Me senti em casa andando pelas ruas da cidade. As ruas próximas a Puerta del Sol se assimilavam bastante com a rua da Imperatriz no centro de Recife, camelôs vendendo de tudo, muita gente e até aqueles caras comprando ouro. O fato da língua ser bastante próxima ao português, me fez sentir mais ainda em casa, lá pude conversar com desconhecidos na rua sem problemas.

Madrid foi meu maior gasto em viagens, pois eu só fazia comer e beber. Bocadillos, tapas, cañas geladas. Os melhores e mais baratos lugares pra aproveitar a culinária espanhola são o Museo del Jamon - lá a gente decidiu algumas (poucas) coisas pra viagem do Marrocos, El Tápon na cidade vizinha e histórica de Alcala de Henares e o Mercado de San Miguel, onde passamos um dia inteiro bebendo e comendo azeitonas, nesse dia, inclusive, me perdi pra chegar em casa, mais de quatro horas, no percusso que seria de uma hora e meia. hehe

Madrid, com certeza seria uma cidade que eu moraria.

Antes do Marrocos ainda fomos em Toledo, cidade linda com ladeiras estreitas e inclinadas, lembrando muito Olinda. Lá conhecemos nossas amigas chilenas, que só fomos encontrar novamente no caminho do Saara.

Dez dias no Marrocos e voltamos direto para Valladolid, cidade universitária no coração de Castilla y Leon. Fomos de ônibus e cada um fez um amigo pra ir conversando. Conversas sobre novos lançamentos para PS2, sobre putas e drogas pelo mundo afora, outra conversa que rendeu ótimas coisas depois e o quarto integrante foi babando na janela do busão. Chegamos lá como se tivemos saído direto do deserto, sem água, nem comida. Um banquete que não esquecerei jamais estava quase pronto, tempo só de tomar um banho e mandar mensagem pro Brasil pra dizer que tava bem. Laura, Marcela e Anamaria se garantiram demais! Na cidade, passava o dia dormindo e a noite bebendo. Eita vida boa!

Antes de voltar pra Madrid e pegar o vôo pra Berlim, ainda passei em Salamanca, outra cidade Erasmus. Cidade linda, mas infelizmente só pude passar o dia, pois não arrumei onde dormir, sem dinheiro para hostel e os contatos de lá tavam na França. Terminei a viagem literalmente a pão e água na rodoviária de Salamanca. Liguei pra Poly que me abrigou de novo em Alcala e ainda me deu 5 euros pra eu pegar o trem até Madrid. Valeu Poly!!!

Ainda volto na Espanha com certeza, pelo menos pra conhecer Barcelona!

Oktoberfest

E ainda teve a Oktobertfest em Munique no penúltimo final de semana de setembro! Uma das melhores festas do mundo! Me pareceu uma espécie de carnaval alemão, todos bêbados cantando apenas umas 10 músicas no total, mulheres lindas com aquelas roupas da Bavaria e muita cerveja!

Alugamos dois carros e chegamos por lá na madrugada da sexta pro sábado. Uma amiga dos "piá" nos hospedou. O combinado era que cinco pessoas dormissem lá, mas acabamos todos os dez dormindo na sala, onde já dormia um casal de americanos. Foi surreal nossa chegada, eu já entrei na casa enchendo o saco de dormir, e me instalei no cantinho. Em segundos já tinha alguém roncando, foi foda pra dormir. Três horas depois, despetador toca e todo mundo ao mesmo tempo se levanta, arruma tudo e desfaz o acampamento em segundos. Hora de beber, gente pra caralho na entrada das tendas, só conseguimos ficar no biergarten, não dando pra entrar na tenda. Depois saímos do biergarten pra ir no banheiro e não nos deixaram entrar mais, muita gente. Fazer o quê né, então vamo beber Jägermeister que a cerveja é cara! (9 euros o litro!!!) Depois de muito pertubar, dormir na grama, passar frio, ficar de ressaca e melhorar em algumas horas e passar bem uma hora numa fila de uma tenda, conseguimos entrar numa das tendas, graças a uma figura surreal que apareceu por lá. Tive que deixar a garrafa de Jägermeister na entrada, wie schade, e entramos. Lá dentro, de fato acontece a Oktoberfest, todo mundo em cima das mesas cantando "ein prosit, ein prosit..." ou ainda griesischer wein, ou ainda, ou ainda.. As pessoas faziam das mesas pista de boliche com seus corpos alcoolizados, não paravam de brindar e cantar, uma doidera. Achei uma máscara no chão, alter-ego em ação! Roubamos as canecas, a tenda fechou, nos expulsaram de lá e fomos aprontando no meio da rua com todo mundo que passava. Acho que nunca tive tão bêbado desde que cheguei aqui. Polícia, Mcdonalds, dormindo na estação de metrô, sem mais transporte em Munique, frio, táxi, casa.

No outro dia ainda queria ir no Neuschweinstein, mas ninguém topou. Então fomos conhecer a cidade, 30 minutos andando e olhamos um pro outro e.. vamo beber!!! Muito melhor no domingo, menos gente, deu pra entrar em todas as tendas que queríamos. Mas as macas continuavam passando com os alcoolizados direto pro hospital. Difícil foi querer voltar pra casa. Chegamos em Berlin só pela manhã já pra devolver o carro. Nessa semana que se seguiu eu devo ter dormido ao todo umas 15 horas. Fiquei até doente.

Esse final de semana de Munique foi um dos melhores e mais loucos finais de semana da minha vida!



Lar, doce lar


Algumas pessoas dizem que o melhor de viajar é poder voltar pra casa. Claro que não concordo com isso, mas de fato é muito bom voltar pra casa e como é bom reconhecer Berlim como casa. Sobrevoando a cidade, já pode se ver a Fersehenturm brilhando e imponente como sempre, é de arrepiar. Descer no aeroporto, escutar de novo o alemão, reconhecer as palavras, pegar o metrô, Kreuzberg, linha U1, pessoas saídas de um filme de Lynch, descer no Zoologischer Garten, comprar um döner atrás da Gedächtnis Kirche, uma cerveja no turco e ir andando bem devagar pra casa sentindo os milhões de cheiros, flashes e sensações dessa cidade, que é feita de pedras e histórias sombrias, mas parece encantada.

5.10.09

Outono


Red sky and the tower.
Upload feito originalmente por brecht [Albrecht Mariz]
Começando a esfriar de novo em Berlim. Depois de alguns meses com temperaturas bem altas, com o dia mais quente do ano a 36°, as folhas das árvores começam a ficar amareladas e a caírem, o dia escurece bem mais cedo geralmente com essa textura vermelha inacreditável e o dia amanhece assustadoramente tarde, assim sendo preciso às vezes, sair ainda no escuro pra rua.

Mas as pessoas continuam com a energia do verão, do calor, aproveitando os dias como se cada dia fosse o último a não fazer tanto frio. Com o frio chegando, a necessidade de um abraço, de um corpo ou uma boca quente aumenta, fazendo com que nossas camas amanheçam mais quentes, nos envolvendo num domingo de manhã para que fiquemos mais um pouco entre cobertas e travesseiros.

31.8.09

Inglourious Basterds



Sendo exibido nos cinemas desde o dia 20 de agosto por aqui, só fui assistir nessa semana o novo Tarantino.

O filme se passa na França ocupada pelos nazistas durante a Segunda Guerra, sendo falado em inglês, francês, alemão e ainda em italiano, no começo da primeira sequência e em outra cena cômica entre os Inglourious Basterds e o caçador de judeus, Hans Landa. O filme se afasta dos EUA, mas Tarantino mantém seu estilo e referências, deixando o filme inconfudivelmente com sua marca.

Apesar de não ter a descarga elétrica de Death Proof, o filme consegue manter acessa toda a pláteia do começo ao fim das suas quase duas horas e meia de projeção. Curioso ter assistido aqui em Berlin, com tantos alemães, que em sua maioria talvez tenham tido pais ou avôs que faziam parte do regime nazista. E ver nazistas sendo esfolados e queimados pode ser incomôdo, por mais ódio que a geração atual tenha dos nazistas. Entretanto todos parecem ter adorado, a pláteia participava e vibrava com as cenas e diálogos multilinguais. No final o filme foi bastante aplaudido. A exceção foi um senhor que estava do nosso lado e parece não ter gostado muito, entretanto ficou até o seu final demoníaco, assim como todas as 500 pessoas no cinema completamente abarrotado.

O título, e provavelmente o filme, foi inspirado no filme italiano Quel maledetto treno blindato (The Inglorious Batards), filme de 1978. Enretanto não se trata de um remake. O título sugere que irá ser narrada a história dos Inglourious Basterds, grupo de soldados americanos de origem judaíca liderados por Aldo Raine, interpretado por Brad Pitt. Mas não é bem o que acontece, os Basterds ficam ausentes boa parte do filme, sendo a história desenvolvida através de vários personagens distintos. Como Shosanna, a dona do cinema onde se passa grande parte do filme, assim como os personagens pitorescos de Goebbels e Hitler, Frederik, o soldado e ator alemão, interpretado por Daniel Brühl, sempre com cara de mocinho apesar de soldado nazista e principalmente o alto comandante alemão Hans Landa, numa atuação perfeita de Christoph Walz. Como saiu na Yorker, revista do maior grupo de cinema de Berlin com ótimas críticas sobre os filmes, Einer spielt sie alle an die Wand: Christoph Walz, ou seja, um joga tudo contra a parede, modo alemão de dizer "do caralho!".

Sempre vemos em seus filmes, uma declaração de amor ao cinema e nesse não podia ser diferente, com o filme quase todo se desenvolvendo em torno do cinema em Paris e tendo lá o seu final com projeção fantasmagórica em meio à fumaça, Tarantino remete que filmes podem pôr fim a uma guerra.

Antes da exibição, trailer de Das weisse Band, Palma de Ouro em Cannes, estreia aqui em outubro. Haneke e Tarantino são diretores que tratam da violência em seus filmes de modo tão equivalente ou distinto, dependendo do ponto de vista, eu não sei ainda qual o meu. Interessante.



International Kino Berlin, 31 de agosto de 2009.

24.8.09

2.2



Como em todo ano, muita bebida, gente pra caralho, descontrole absoluto, quedas de bicicleta e um pouco de vandalismo saudável. Não poderia ser diferente só por estar em Berlin. Ontem foi um dia bem louco e divertido. E claro, com o sol que fez, tinha que ser no Mauerpark, melhor lugar de Berlin aos domingos. Ainda escrevo sobre esse lugar aqui. Gente do mundo todo, cerveja, caipiginha e boulette. Tipicamente berlinense. hehe

Mas senti falta das comemorações de Recife, era sempre uma felicidade enorme reunir todo mundo. Saudades.

E parabéns bunita! Esse ano não deu pra gente comemorar junto, mas ano que vem a gente desconta! uhu!

5.8.09

MARROCOS


Mochila nas costas e sem limites de velocidade. Atrás, o carro que alugamos. Começo da viagem. Casablanca, 27 de maio de 2009.

[Enfim o texto do Marrocos, mas ainda é a primeira parte]

Ao som de Manu Chao, trilha sonora de TODA a viagem, me inspiro pra escrever sobre o Marrocos.

Dois boratchos durante uma noite a la fundo blanco, têm a idéia de ir para o Marrocos. E assim, boratchos, compram as passagens para Casablanca. Um me liga e lança a idéia. Mas estou em aula, digo. Deixa de frescura, Brecht! Tá, vamo nessa! E já compro as passagens. Ligo para o quarto integrante da expedição, que fica enrolando e só compra a passagem dois dias antes da viagem. Grupo formado!

Mas ficam as dúvidas, que vamos encontrar lá, que cidades a gente vai visitar, como fazemos tudo..? Para isso existe a Lonely Planet! Livro comprado horas antes do vôo Madrid-Casablanca. Sem esse livro e claro, o mapa da Michelin, não sei como faríamos tudo. Foi providencial.

Atravessando o Estreito de Gilbratar e tentando bolar um roteiro, que foi sempre modificado, aquele velho papo de foco. Mas que bom.

Chegando em Casablanca, alugamos um carro, depois de muita conversa pra baixar o preço, claro. O aeroporto fica a 30 km do centro de Casablanca. Só eu tenho carteira, então vamo lá! Liga o carro, porra! Calma doido! Liga o som! Eita caralhoo! Só música árabe! Pegando a estrada, esquecemos de encher o tanque, gasolina acabando, mas por sorte achamos um posto. Quem trocou dinheiro, hein? Eu não brother, todos dizem. Depois de muita confusão tentando trocar dinheiro, passamos no cartão, tão fácil né. Agora a gente chega! uhu! Mas tinha um pedágio no meio do caminho, a moça só falava francês. Depois de várias tenativas de explicar a situação,[hablas español?, do you speak english?, sprichst du deutsch?], o taxista que tá atrás impaciente troca dinheiro pra gente. Será agora que a gente chega?

Não antes de quase enlouquecer no trânsito, o mais caótico que já vi! Centenas de mobiletes antiguíssimas e barulhentas, carros, caminhões, pedestres, cavalos, passam tirando fino do retrovisor, trancando a gente, nos xingando em árabe. Foi uma tarefa difícil dirigir lá, deu vontade de largar o carro no meio da rua. Depois de alguns sustos no trânsito e de muito rodar pra achar uma casa de câmbio, deixamos o carro no estacionamento e fomos atrás do albergue.

Sem problemas para achar o albergue, que ficava dentro da Medina, o centro histórico que toda cidade do Marrocos têm. Deixamos as coisas e fomos átras do famoso cuzcuz marroquino, sem sucesso. Depois viemos descobrir que não é servido todos os dias, pois faz parte da tradição de lá, só viemos comer o tal cuzucuz marroquino em Fèz. Caminhando pela Medina vemos um bar de teto bem baixo e rebuscado cheio de homens tomando café ou o chá assistindo algum programa nas várias televisões espalhadas pelo salão. O ambiente era meio opressor para nós, turistas, e nem pensamos em parar pra tomar um chá e trocar idéia com o dono ou tirar foto. Seguimos e claro, nos perdemos naquele emaranhando de vielas. Avistamos a Hassan II e seguimos para lá, não antes de pegar a direção oposta átras do cuzcuz e comer um sanduíche que tinha até arroz dentro, com uma Coca-Cola.

Enfim, a Hassan II, a construção mais impresionante que vi no Marrocos e uma das coisas mais grandiosas do mundo. É a terceira maior mesquita do mundo, construída em 1993 pelo então rei, Hassan II, custou 500 milhões de dólares americanos. Ao redor da mesquita, favelas. Ao mesmo tempo impresionante de se ver e revoltante, com tanto dinheiro podia-se construir uma nova Casablanca, bem menos miserável.

Passamos horas olhando a mesquita e tirando fotos, isso porque não entramos, pois a entrada só é permitida aos muçulmanos. E quando deu 21h, a última oração do dia, Salát Al-Ichá (A Oração do Anoitecer). Um homem entoava algo que ressova por toda a redondeza, era muito forte, tinha muita energia. A mesquita parecia nos atrair magneticamente, não conseguiamos sair de lá, e quando, enfim saímos, íamos olhando pra trás o tempo todo.

Fomos atrás de algo pra comer e de uma cerveja, à beira da praia, me sentia em alguma cidade no litoral do nordeste, uma cerveja ia cair muito bem. Mas, para meu desespero, não se vende alcóol em todos os lugares do Marrocos, sendo muito raro de encontrar. Suco de laranja então! Uma das especialidades do Marrocos. Ainda pedimos leite quente, sem entender o menu, pensando que era algo típico de lá! hahaha

Indo pro albergue andando, nos sentimos no Brasil, devido a uma certa sensação de insegurança, mas chegamos bem e ainda a tempo de pegar a porta aberta, que fechava de meia noite.

Acordamos e fomos ver a Hassan II por dentro no horário de visitação. Nos impresionamos mais ainda com o que havia dentro, portais enormes, mosaicos multicor, banheiro turco. Tudo incrível, mas não dava pra esquecer a pobreza que havia do lado de fora, um contraste gritante.

Hora de ir pra Rabat, a capital. Estrada com pedágio, mas bem barato, paracia um tapete, me senti numa Autobahn alemã, tanto que o radar da polícia acusou excesso de velocidade. Fomos parados, mostramos os documentos, nos informaram que a gente ia ter que pagar uma multa, conversa vai, conversa vem e o policial pergunta de onde somos. Brasil, respondemos. Ah, Sócrates, Péle, Ronaldinho! - fala o policial. Ainda bem que tinha dois entendidos de futebol no carro, aí ficaram conversando sobre os times do Brasil, do Marrocos e o guarda liberou a gente. Futebol mostrou-se uma forma infalível de se livrar de multas no Marrocos em mais duas ocasiões, na última já tinhamos todo o script na cabeça inclusive. Então seguimos viagem, um pouco mais devagar.

Chegando em Rabat [ao som de Chico Science, O Cidadão do Mundo] já podemos ver muita diferença em relação à Casablanca. Cidade mais rica, organizada, o trânsito nem enlouquecia. Era tão relax dirigir lá que decidimos dar uma volta pela cidade de carro e só mais tarde ir atrás do hostel. Fomos, claro, pra praia, já que Rabat fica na costa. Chegando lá, um cemitério enorme na beira da praia, muito inusitado. Saudade de mar, então vamo entrar na água! Alugamos um body board e fomos que nem crianças correndo loucamente pra água. Colocando o pé na água, que frio! Mas isso não impediria nunca de entrarmos. Ficamos pegando onda, brincando com as crianças e tremendo de frio. Na areia tava rolando uma pelada e pedimos a próxima. De onde são, perguntaram. Quando dissemos, enlouqueceram, fizeram um campo marcado na areia, se reuniram, fizeram táticas, e durante o jogo nos deram milhões de caneladas. Começamos ganhando, mas o jogo terminou empatado em 4x4, resultado vergonhoso para nós e vitória para eles. Nossa desculpa foi que ficamos abalados porque haviam roubado nossas coisas que estavam na areia. Ainda bem que eram só as camisas, havaínas e meus óculos de sol.

O sol vai mergulhando no mar, hora de achar o albergue. Lá conhecemos os parceiros, brothers de toda a viagem, los hermanos, nossos amigos argentinos. Que haviam pegado o mesmo vôo com a gente, e já havíamos nos encontrado em Casablanca. Então fomos comer algo e pensar nas próximas cidades e o que iríamos fazer amanhã. Essa sensação de sentar, abrir mapa e livro e programar viagem é uma das melhores sensações que se pode sentir, não sei nem explicar isso.

No outro dia, conhecemos a medina da cidade, mais algumas partes da praia e partimos. Agora pra Meknés, uma das quatro cidades imperiais. Que sem a dica dos hermanos nem iríamos conhecer. Lá estacionamos um carro e um guia queria nos mostrar a medina por alguns dhs (lê-se dirans, a moeda marroquina). Um pouco desconfiados, mas fomos com ele, que nos mostrou a medina e a parte onde se fazia trabalhos com ferro. Muitas crianças trabalhando, o que parece não condizer com a estatísticas oficias sobre trabalho infantil, que indica ser bem baixo o número de crianças que fazem parte da força de trabalho.

Então, o guia nos levou até uma loja de tapetes, onde começou uma apresentação de tapetes marroquinos. Nos serviram o famoso whisky marroquino, que até então pensei que podia haver alcóol, mas não era nada mais que um chá. Foi uma experiência mágica, aqueles tapetes sendo exibidos, os caras sabem vender seu peixe bem. Os marroquinos tem uma aptidão enorme para ser negociantes. E falar que vai comprar algo e depois desistir para eles é uma ofensa grave, para eles essa coisa da palavra é levada à risca.

Encontramos com o guia, voltamos ao carro e vamos para Fèz, outra cidade imperial. Mais problema com a polícia, mas dessa vez não foi minha culpa. O guarda inventou uma infração para nos extorquir dinheiro. A multa começou com 400 dhs, passou p 200 dhs e foi baixando, até ele nos deixar de ir embora, claro depois de muito conversar sobre futebol.

Chegamos em Fèz de noite, paramos num supermercado e comemos em cima do carro. Rodamos a cidade atrás do albergue, não achamos e pedimos ajuda a um marroquino, que ligou pro hotel, perguntou onde era e fomos seguindo o carro dele até lá. Os marroquinos quase sempre foram muito simpáticos e prestativos, com algumas péssimas exceções, claro. Acabamos ficando na casa de uma família, um Riad. E finalmente compramos cerveja [uhu!], a primeira cerveja depois de dias, tomada na laje do Riad e super quente.

No outro dia fomos conhecer a medina, como em todas cidades. Mas essa tinha algo de especial, era enorme e impossível de não se perder, acho que passamos seis horas rodando por aquelas vielas estreitas, comendo doces sem parar e sempre dando voltas e retornando ao mesmo lugar. Lá finalmente comemos o famosos cuzcuz, numa loja de tapetes, nada mais marroquino do que isso. Cuzcuz para 6 pessoas num prato enorme. Muito bom.

Nos despedimos da cidade vendo o pôr do sol nas ruínas de Fez.

[em breve a continuação da nossa saga]

...

2.8.09

Notícias




Passado o vislumbramento inicial de ver tudo novo e diferente e exatos cinco meses vivendo em Berlin, talvez possa agora ter uma visão geral desse meu tempo aqui. E assim volto, depois de muito tempo sem postar e sem escrever muito sobre o que anda se passando a dar notícias.

Gostaria de dar melhores notícias, mas nem sempre as coisas saem como planejado. Ainda não estou falando bem alemão, consigo me comunicar razoavelmente no dia a dia, falando coisas mais básicas. Mas, em termos de universidade, por exemplo, andei apanhando bastante do idioma, havia aulas que eu não entendia quase nada. Por conta disso, não consegui fazer os trabalhos para ter as notas suficientes para passar nas cadeiras e fazer as equivalências no Brasil, com exceção do curso de alemão, que conta como cadeira eletiva, são 6 ECTS. Eu realmente tentei, mas ler os artigos e escrever os textos não me foi possível. Alemão não é um idioma fácil, acreditem. Fiquei bastante frustrado com isso, mas depois desencanei, corro atrás disso quando voltar ao stress do curso de Economia da UFPE. Isso não prejudica meus planos de voltar a estudar ou trabalhar aqui, acho. Tá certo, não ajuda, mas também não atrapalha. Pelo menos assim quero pensar. Porém tenho que explicar muito bem tudo isso na universidade aqui.

Depois que não conheço muita gente aqui, tenho poucos amigos. Na minha residência praticamente só moram pessoas que têm sua vida aqui há tempo e não saem dessa rotina, dificulta pois acabamos não se misturando tanto. Mas sempre estou na cozinha e acabo conversando com todo mundo, praticando meu alemão. Apesar de poucos amigos, tenho feito boas amizades aqui, pessoas que admiro bastante e que aprendo muito com elas. Também passaram pessoas, que assim como eu, continuaram sua andada e não permaneceram muito tempo, mas que vou sempre lembrar com carinho.

Situação financeira se transformou no último mês num problema, o dinheiro que havia juntado em Recife não está lá muito bem, e detalhe que ainda não tenho passagem de volta. Tive alguns gastos imprevistos, gastei muito na viagem do Marrocos e Espanha e a vida aqui, apesar de ser barata, não é tanto para mim. Ainda não havia procurado emprego, pois o idioma ainda não estava fluindo, mas agora preciso arrumar de todo jeito. Já fui em alguns lugares, mas nada até agora. Nessa semana vou na agência de emprego e em alguns bares. Coloquei meu nome na lista para ser uns faxineiros do prédio, com esse dinheiro já pagaria meu aluguel.

Andava numa fase mal, não sei que porra eu tinha. Disperso, completamente desorganizado, sem vontade de fazer nada, sem energia. Andava meio cabisbaixo e triste. Vejam só que despautério. Não estava me reconhecendo. Mas agora to melhor, to de volta! haha

Não pensem que estou reclamando, estou feliz pra caralho por estar aqui. Berlin é uma cidade fantástica, louca e pulsante. Tem muita vida. E está sendo uma experiência única esse tempo aqui.

Fazer intercâmbio numa cidade como Berlin é um pouco diferente, creio. Sendo uma cidade enorme, de proporções absurdas mesmo, as pessoas acabam não se encontrando por acaso, se torna difícil construir relações aqui. Aqui não é aquela loucura de Erasmus que é a Espanha, por exemplo. Ah, a Espanha... Além do que se eu quiser não falo alemão, a maioria das pessoas, pelo menos os mais jovens, falam um inglês perfeito, e ainda por cima a quantidade de pessoas que falam espanhol aqui chega a ser um absurdo. Meu espanhol melhorou bastante em Berlin. hehe

Ainda me resta tempo para aproveitar a cidade, conhecer pessoas, aprender alemão e inglês, viajar e fazer os contatos para poder voltar. Haja o que houver, vai valer a pena. E essa é a minha história que eu mesmo estou construindo, com ajuda de outras histórias claro, sempre compartilhando e entrelaçando-as, mas é a minha história. Apesar das dificuldades do presente, da incerteza do futuro, vou construindo essa história com menos pressa agora, sem querer abraçar de vez o mundo. Faço o que posso fazer. E fico feliz de olhar para o passado e ver que construí algo, que tenho pessoas que sempre vão estar do meu lado e eu do lado delas. Isso me dá força. A estrada é longa, e eu sinto que só estou no começo. Mas agora, sigo mais tranquilo.

Escrevo isso pensando nas pessoas que admiro. Todos que penso agora escrevendo, são completamentes diferentes, cada qual com seu jeito. Mas todos incríveis, como profissionais e como pessoas.

Que mais, que mais? Acho que isso é tudo, ou quase tudo. Já são mais de 02h, preciso dormir para resolver umas coisas pela manhã.

Ciao ciao, bis dann, hasta!